
| Antes de entender o que era comércio exterior, Maria Itália já sonhava com o mundo. Quando criança, passava horas girando o globo que ganhou do pai e imaginando o que havia em cada país, cada nome, cada cor. O tempo passou e aquele globo, quem diria, traçou o seu destino. “Eu sempre fui curiosa. Gosto de conhecer pessoas, culturas, de entender como as coisas funcionam. Sempre fui uma eterna “perguntadora”, lembra, rindo. As primeiras decolagens Recém-chegada dos Estados Unidos, onde morou ainda adolescente, Maria Itália começou a trabalhar na VARIG, antiga companhia aérea brasileira. “Eu queria um lugar onde eu pudesse viajar pelo mundo”, conta. E, na época, trabalhar em uma companhia aérea era o passaporte mais viável para isso. Afinal, os colaboradores dessas empresas acabavam tendo acesso às passagens aéreas de maneira mais acessível. Entrava às seis da manhã, folgas só às segundas e um domingo por mês. Fazia faculdade à noite e voltava para casa quase à meia-noite para descansar e começar tudo de novo no dia seguinte. Entre atendimento a voos e passageiros, muitas e muitas horas em pé e vários calos, descobriu que o trabalho duro não a assustava, pelo contrário, a motivava. Mas o destino não era o balcão de embarque… era o que vinha depois do voo. Entre cartas e telex, uma boa dose de coragem Quando foi convidada a trabalhar em um armazém alfandegado e comissária de despachos em 1980, Maria Itália mergulhou num universo que poucos conheciam: o do comércio exterior. “Eu não sabia nada, mas aprendi tudo. E aprendi fazendo.” Era o início dos anos 80, não havia celular, internet ou e-mail. As operações eram coordenadas por carta (acredite se quiser!) e o telex era a tecnologia de ponta. “Eu escrevia cartas para avisar embarques marítimos, para negociar, para resolver problema. Era outro tempo, e funcionava. As pessoas honravam a palavra.” Foi nesse ambiente, dominado por homens, diga-se de passagem, que ela começou a se destacar. Pela curiosidade, entrega e pela coragem de não se intimidar. “Eu era de uma geração que queria desbravar. A gente queria merecer e provar que podia, e trabalho era um orgulho e não um peso como hoje muitos encaram. E não tinha frescura, nem mimimi, ser forte e enfrentar problemas era o mínimo que se esperava de um bom profissional. Se tinha que ir, eu ia. De ônibus, de carroça, a pé, do que fosse.” A mulher que não pediu licença Trabalhar até tarde, virar noites, enfrentar alfândegas, encarar o porto, os caminhoneiros e também os fiscais, sozinha, nunca a amedrontou. Maria Itália fez tudo o que era preciso e muito do que ninguém sequer esperava de uma menina. “O não eu já tinha!”. “Era um mundo masculino, sim. Mas eu nunca entrei pedindo espaço e nem cotas. Eu só fazia o meu trabalho, e fazia o melhor que podia.” Se ouvisse desaforos ou coisas piores, respondia com humor e sem mostrar fragilidade ou ficar vermelha! “Eu sempre achei que o que protege a mulher é ela mesma e a atitude perante o outro”. Não se trata de gênero, se trata de posicionamento, de trabalho, de resultado! Já dizia a música “levanta sacode a poeira e dá a volta por cima”, naquela época tinha superação e não desculpas! O nascimento da Clipper |

| A história da Clipper começou, como tantas coisas na vida de Maria Itália, de forma orgânica. A empresa em que trabalhava enfrentava dificuldades e um Agente e um diretor enxergaram nela potencial. E o convite para empreender surgiu. “Eu nunca planejei abrir uma empresa. Eu só aceitei o convite porque não queria deixar aquele Agente e os clientes que eu já atendia ‘na mão’. Assim, em 1984, nascia a Clipper, numa casa simples no Jardim Bonfiglioli, com algumas mesas, uma máquina de escrever e o investimento principal, 15 linhas telefônicas (um luxo e difícil de conseguir para a época). O nome veio de um estudo cuidadoso: Clipper era o nome dos veleiros mais velozes do século XIX, e também da “Clipper Class”, a classe executiva da Cia aérea PanAm. “Queríamos um nome que representasse agilidade e excelência. E o símbolo do veleiro mais veloz da história da navegação e a classe VIP da Cia aérea tinha tudo a ver com o que queríamos entregar, que hoje se chama missão”. Trabalho, perdas e conquistas Nem tudo foi fácil. A fundação da empresa coincidiu com uma gravidez, uma perda dolorosa de um primeiro filho e uma série de crises econômicas no país. Depois veio a quebra de bancos nos anos 90, o plano Collor, os anos de dívidas, os prazos, as noites sem dormir e muito trabalho. Mas a Clipper seguiu firme e Maria Itália também. “Nunca faltei um dia de trabalho. Eu só trabalhei e dei o melhor de mim. E foi o suficiente.” Décadas depois, ela ouve de alguns: “que sorte você teve”, e sorri. “Não foi sorte, foi não usar o tempo com o que não era importante ou estivesse fora da rota e do objetivo maior, foco no trabalho, no atendimento, eficiência, conhecimento técnico e buscar cobrir a diferença e os anos luz que nos separavam da nossa atividade no resto do mundo e fazê-las funcionar no Brasil”. “E, a nível pessoal, o que todos de minha geração queriam, ser reconhecidamente um bom profissional, e sendo mulher, certamente significava tripla jornada. Foram 40 anos de entrega, foram 25 pagando o que precisava pagar para comprar o restante de cotas que me faltavam, para manter o capital de giro e manter a empresa entre os grandes. E o sabor de vencer desafios a cada dia e em algum momento ver a missão cumprida e os resultados obtidos que me trouxeram até aqui e sempre me move!” O legado Hoje, a Clipper é uma empresa consolidada, respeitada e humana, assim como sua fundadora. O que começou como um sonho de menina curiosa virou uma trajetória de liderança feminina num setor onde, até hoje, são poucas as mulheres à frente. E se perguntam a ela o segredo, a resposta vem simples:“Não fui eu, foi o Universo que colocou em meu caminho, para eu fazer. Eu só fiz ter responsabilidade com o que me foi entregue, fazendo o que estava na minha alçada e dando o melhor de mim, dia após dia”. De cartas a e-mails e WhatsApp, de telex a videoconferência e Inteligência Artificial, o tempo passou, mas o que construiu “A Clipper” continua com o mesmo “drive”: trabalho, coragem, profissionalismo e propósito. A Missão continua a mesma: Qualidade, agilidade e eficácia! |



